O merceeiro Carlos Moura-Carvalho
O
advogado que conseguiu ter uma mercearia de sucesso em tempos de crise graças à
sua perseverança e originalidade.
Carlos é um petisqueiro, chegando a
fazer 100km para ir comer, gosta de grandes almoçaradas e defende que os
restaurantes são tão importantes quanto os museus. É advogado desde 1992, acredita que a faculdade de Direito
dá muita “elasticidade mental” e que “um jurista é capaz de fazer tudo”. A
culinária é uma das suas paixões e considera que cozinhar e fazer petiscos é
conciliável com qualquer outra profissão.
Em 2010 decidiu que estava na altura de concretizar um sonho antigo
e abriu a Mercearia Criativa na Av. Guerra Junqueiro. “Sempre gostei de fazer
coisas diferentes e não estar muitos anos nos mesmos projectos”, conta, “neste
caso estou mais motivado por a Mercearia ser um projecto meu. Cada vez que
venho cá sinto-me apaixonado e com vontade de fazer mais.”
Caracterizado pela sua mulher, Susana, como uma pessoa com “perfil de fazedor e sonhador” assim que viu a
oportunidade de abrir a sua mercearia agarrou-a. Pegou numa antiga loja de
fatos-de-banho e transformou-a em apenas seis meses. É adepto da simplicidade,
tanto na culinária como no resto, por isso para este projecto pensou que “quanto
mais simples melhor”. Com um orçamento apertado conseguiu que ainda lhe sobrasse
alguma verba.
Fã incondicional de mercearias de
bairro quis criar uma mercearia pequena, com tratamento personalizado, onde se
soubessem os nomes dos clientes e as pessoas se cumprimentassem. Sendo um
amante de viagens conta que em qualquer destino que fosse procurava “aqueles
espaços de bairro com charme” com produtos diferentes e únicos. Inspirou-se em
todos os que conheceu, mas destaca os de Paris e os de Roma.
“Queria um tipo de loja igual às que já
existem noutros países e que aqui em Portugal não existia. Este espaço é
simples, mas ao mesmo tempo cosmopolita, revelando a minha maneira de ser e
também a da Susana.” O casal conheceu-se num jantar em 2004
e estão casados desde 2005. “Carlos é no casamento como é na vida: exigente,
companheiro, cúmplice e um grande coração” conta a sua mulher.
Inicialmente o
casal estava sozinho neste projecto, Susana diz que foi muito trabalhoso, mas
também “gostoso”. Apoiou sempre as ideias de Carlos, mas tendo a Mercearia
continuado a crescer sentiram que era necessária uma mudança. “Em Março de 2013
surgiu uma boa oportunidade: acrescentar a Rita ao projecto, foi algo muito bom
para todos”.
Assim venderam a
quota de Susana a Rita, merceeira desde Agosto de 2012, que se tornou a nova
sócia de Carlos. Tratam-se alegremente por “partners”
e Rita conta: “temos uma relação muito boa e saudável, porque acima de tudo
temos muita confiança, carinho e respeito um pelo outro.” Diz que o lugar de Carlos é na
cozinha, justificando: “ele cozinha muito bem, é criativo e sabe conjugar bem
os sabores e contrastes.”
O filho de dez anos, António, também considera que o pai é um
bom cozinheiro, dizendo: “ele faz um hambúrguer óptimo”. O orgulho no pai é
evidente, pois elogia os produtos que o pai escolhe e os eventos que realiza.
Apesar de agora ter duas ocupações tal não fez de Carlos um pai ausente. “Ele
vai sempre aos meus teatros e concertos. Às vezes ele chega tarde, mas só às
vezes” conta António.
Ao falar do desempenho do seu sócio na Mercearia, Rita refere
o facto do seu “partner” saber
estabelecer o contacto com os fornecedores e gaba-lhe a “forma assertiva,
confiante e conhecedora como fala e descreve os produtos, vendendo-os muito bem”. Carlos escolheu produtos diferentes de produtores que não
eram conhecidos, tendo utilizado listas que foi elaborando ao longo do tempo.
“Foi o gosto e conhecimento desses produtos em carteira, em agendas antigas,
que fui recuperar.” No início teve de procurar os produtos realizando viagens
gastronómicas, mas hoje em dia são os fornecedores que vão até à Mercearia para
lhe fazerem propostas.
Outro critério que definiu foi o de
ter apenas o que gostasse, pois acredita que só se consegue vender aquilo de
que se gosta. É assim na Mercearia, mas também na advocacia, dizendo: “só
consigo defender aqueles que acredito que estão a dizer a verdade”.
Mas Carlos não se limitou a vender produtos portugueses e a
servir petiscos. Criou ainda várias iniciativas promocionais como provas de
vinho, oficinas de pão, festas de ostras e de gelados. Mais recentemente tomou
a liderança do Movimento dos Comerciantes da Av. Guerra Junqueiro, Praça de
Londres e Av. Roma, que pretende promover uma nova dinâmica ao comércio tradicional
local nesta zona da cidade revitalizando-a.
José Paulo, amigo de Carlos há cerca de 15 anos, diz: “ele foi fantástico na promoção
inicial do negócio, quer junto de amigos e conhecidos, quer no meio envolvente.”
Já no que toca à amizade, José considera-o um bom amigo, preocupado com as
dificuldades daqueles de quem gosta e sempre disponível para ajudar.
Sendo a Mercearia um projecto de Carlos, Rita explica que o
seu princípio foi sempre o de respeitar e ajudá-lo a concretizar todos os seus
sonhos. “É fácil chegarmos a um consenso, pois temos gostos muito parecidos e
temos um sentido prático de resolver as coisas muito idêntico”, conta Rita que valoriza
o facto de Carlos ter confiado em si para gerir “a sua casa”.
“É definitivamente um dos patrões
mais descontraídos com que me cruzei”, diz Patrícia, merceeira já há um ano e
meio. “É uma pessoa
com grande abertura para ouvir novas sugestões, procura sempre proporcionar um
óptimo ambiente e manter uma boa relação com as colaboradoras. É como se
fizesse parte de uma grande família.”
Patrícia gosta de trabalhar com
Carlos, admitindo que não sente “a tensão que normalmente se sente quando se
lida directamente com o patrão”, acrescentando que nem é a denominação mais
correcta porque, apesar de existir uma hierarquia, a relação entre todos é
bastante equilibrada.
Carlos diz que para abrir uma
Mercearia é preciso: “rigor, business
plan, bom local, escolha de produtos criteriosa e original, não copiar
ninguém e fazer bem feito”. Não precisou de pedir empréstimos, nem de fazer
grandes esforços económicos e ao fim de dois anos conseguiu recuperar o
investimento. Confessa que a grande dificuldade são os colaboradores e a sua
falta de profissionalismo, sendo agora mais criterioso com as pessoas que selecciona
para trabalharem consigo.
“Criativa porque era uma forma mais
apelativa para recriar o conceito de mercearia. Foi também um trocadilho com o
meu nome, MC significa Moura Carvalho”, explica assim a escolha do nome deste
seu negócio que desde o começo tem vindo a crescer.
Carlos revela que geram mais receitas servindo os petiscos e
admite que a componente da restauração compensa mais. Os pratos são feitos com
produtos que estão à venda na mercearia, um traço característico deste negócio.
Com o lema de “tudo se consegue” acredita que se a pessoa
quiser consegue adaptar-se facilmente. Refere que o facto de ter Rita, a nova
sócia, a tempo inteiro na Mercearia faz com que esteja mais tranquilo.
“A Mercearia Criativa não
podia estar melhor”, diz orgulhosamente, “está muito próximo do que foi sempre
o meu sonho, o que em três anos é óptimo”. Continua a ter uma lista de vários
objectivos que quer concretizar e várias ideias a fervilharem na sua cabeça,
como vendas online e
internacionalização de alguns produtos de marca própria.
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